sexta-feira, 31 de julho de 2020

HISTÓRIA DE UMA MÉDICA QUE ATENDE NA ENFERMARIA DA COVID-19




Comecei o plantão com 3 paradas cardíacas. Dos meus 10 leitos, 3 óbitos em menos de 5 horas.
A primeira família trouxe a roupa da paciente achando que ela iria de alta.
Estava bem ontem  a noite, pronta pra ir para a enfermaria.


Precisou ser intubada na madrugada e pela manhã, evoluiu com uma provável embolia pulmonar (mesmo em uso de anticoagulante) e parada cardíaca súbita.

Dona Juraci se foi e sua filha e netas agora rezam pra tia também contaminada, internada e intubada em outra UTI, não ter o mesmo fim.
Seu Francisco, já estava grave, mas seu filho nunca entendeu muito bem como o COVID-19 teria causado a diálise no seu pai e varios episódios de arritmia. Pela manhã, liguei pra avisar o estado grave de seu pai, e quando disse que provavelmente ele não resistiria entre hoje e amanhã, o filho disse “eu tenho fé, estou orando pela sra, pra que a sra faça o melhor por ele”.

Horas depois... estava eu dando essa notícia, pro Danilo, que ao receber a notícia de óbito do pai, ficou indignado e quebrou a janela de vidro da sala de notícias... Precisando descer pra emergência pra dar pontos na mão.
Foi o 5 familiar que ele perdeu pro COVID-19.

Depois do surto, me pediu desculpas pelo descontrole e perguntou se eu tinha visto o que havia acontecido hoje em Copacabana.

Me perguntando como as pessoas ainda conseguem não acreditar no que está acontecendo.. essa resposta nunca serei capaz de dar.

E lá se vão mais 12 horas de COVID-19, menos 12 horas desse vírus no mundo, sonhando com o dia que não viverei mais uma UTI lotada de uma única doença, com todos os pacientes apresentando o mesmo vírus, com todos os familiares querendo um abraço na notícia mais triste sem eu poder dar... menos 12 horas de negacionismo e de uma sociedade se auto destruindo.

Contando os dias, sem saber que dia acaba...

Todos precisam se cuidar a doença é REAL e está tirando a vida de muita gente.



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