quarta-feira, 12 de agosto de 2020

VIAGEM DO MOTOCILISTA



Todos estão com saudades das viagens que eram realizadas antes da pandemia da COVID-19, acredito que os MOTOCICLISTAS são os viajantes que estão com mais saudades de suas viagens, classe amiga e exemplo a ser seguida, aonde chegavam com suas belas motos faziam sua festa sempre no clima de paz e amor.

A forma como vivemos, amamos, trabalhamos ou nos relacionamos com os outros é algo muito pessoal, mas fortemente condicionado. Viajar de moto também, mas com um bônus: podemos decidir se vamos sós, com pendura, ou inseridos num grupo de mais motards!


Há algum tempo, um amigo de longa data, mais do que calejado a andar de moto e guia habitual em muitos passeios e voltas por esse mundo fora, deu a novidade.


- Este ano vou fazer uma viagem de moto pela América do Centro e Sul e quero ir sozinho! Gerou-se logo ali uma acesa discussão e troca de opiniões em que todos os argumentos a favor de viajar sozinho ou acompanhado foram sendo desfilados uns após os outros, sem existir unanimidade, tal como convém quando se vive em democracia!


É comum dizer-se que numa viagem de lazer boa parte do encanto reside na preparação: na escolha da companhia aérea, dos hotéis, nos locais a visitar, na eventual reserva de bilhetes para atrações, transferes, aluguer de carro, ou não, ir no próprio carro, por nossa conta ou com recurso a uma agência de viagens, qual a meteorologia, se são precisos vistos, eventuais vacinas ou medicamentos…


Numa viagem de moto tudo isso é bastante ampliado, já que a viagem é, em boa medida, o próprio destino! Acresce que a preparação ganha outros contornos porque há todo um conjunto de questões a rever que vão desde a componente mecânica, incluindo eventual troca de pneus e revisão no trajeto, aos pontos onde parar nem que seja para abastecer, a navegação, a bagagem que temos mesmo que levar conosco, havendo ou não pendura… e até a necessidade de assistência a acompanhar-nos!


Viajar em grupo entenda-se grupo como duas ou mais motos, tem muitos encantos, mas é completamente diferente serem 4 ou 5 ou serem 10 ou 15 motos, como provavelmente sabem, até por experiência própria!



Num grupo menor é mais fácil a interação e conseguir gerar consensos sobre qual o ritmo a adotar, os locais em que se vão parar, as dormidas e demais planificação. Além disso, a probabilidade de falha mecânica, quedas e outros imprevistos acaba por ser bastante menor, embora se perca alguma magia que se consegue na “algazarra” de um grupo maior.


Uma das maiores vantagens de viajar em grupo tem a ver com a reação perante situações inesperadas. Num ambiente inóspito e hostil, uma queda sozinho pode representar a perda de uma vida, e a dificuldade em levantar a moto ou situações de roubo ou agressão, são potenciadas.


Uma avaria, um furo ou a falta de gasolina são situações que podem ocorrer e de resolução mais simples quando se viaja em grupo. Por outro lado, quando se vai em grupo, a partilha é maior. Claro que nos identificamos mais com A ou com B, mas é natural que no meio de grupo haja sempre afinidades, gargalhadas, saudáveis despiques e trocas de opiniões mais ou menos acaloradas. Além disso, aprende-se a ser mais disciplinado, a respeitar o líder e o vassoura, pois ninguém fica para trás e isto ajuda a desenvolver o espírito de camaradagem e a responsabilidade.


Em oposição, várias cabeças, representam várias sentenças! Há quem goste de andar devagar, a apreciar a paisagem, os acelerados, que querem é curvas e roçar com os pés no chão, quem anda sempre a querer parar para tirar fotos, visitar monumentos, comer ou simplesmente esticar as pernas e fumar um cigarrito, gente que se recusa a dormir num lugar sem um mínimo de condições e quem nada valorize isso, pessoal que aprecia a vertente gastronômica e quem tenha apetite de passarinho…


Em suma, diferentes formas de pensar e de agir. Essa diversidade, ainda que enriquecedora, pode fazer do mototurismo ou da motoaventura um verdadeiro calvário! Pessoas muito diferentes conseguirem conviver durante 1 ou 2 dias mas, e se forem duas semanas?



Há vários casos de grupos que acabaram por separar durante uma viagem por diferendos de ordem vária! Há até uma máxima que diz: se queres conhecer alguém… experimenta tirar férias com essa pessoa(s)! Tanto pode correr bem, como ser catastrófico e estragar as férias! Ou seja, é realmente um desafio muito grande viajar de moto em grupo, sobretudo se a duração da viagem for maior e os participantes não se conhecerem minimamente.



VIAJAR SOZINHO PORQUE…

Interprete-se sozinho no sentido de ser uma única moto, levando ou não alguém à pendura. Ter alguém a acompanhar-nos na mesma moto, para resultar, é essencial que as duas pessoas, independentemente da relação que tiverem, se entendam bem na moto e fora dela e já tenham algum conhecimento mútuo para não acabarem a odiar-se ou a voltar para trás precocemente!

Recordo-me da história de um casal que ainda mal se conhecia (namoro recente, igual à paixão e euforia) e ela aceitou o desafio de uma viagem de moto pela Europa… sem nunca ter andado numa! Compraram equipamento para ela e lá foram à aventura com mais um grupo de motards. Ao fim do segundo dia, farta de frio e chuva e de horas a fio em cima da moto, ela disse que não queria mais! Acabaram por voltar para trás os dois e o resto do grupo seguiu. Curiosamente, ainda hoje estão juntos, mas, para ela, viagens de moto mais longas, nem pensar!


Para alguns a solidão pode ser uma maldição, mas para outros é uma bênção! Diria, sem medo de errar, que há momentos para as duas, mas se quem anda de moto sozinho o faz por opção e porque valoriza o isolamento que permite fazer uma viagem interior, conhecer melhor o seu próprio eu, sem ter que aturar os outros… ou levar a que estes o aturem!


Aliás, o exemplo inicial daquele meu colega tinha muito a ver com isso.

Estava cansado de viajar de moto, de ter que pensar nos outros, de não conseguir focar-se em si mesmo, de ter que dar explicações e justificações, quase a ter que pensar e até (re)agir pelos outros!

Que nada, acabou mesmo por me confidenciar que estava a perder parte do gosto de andar de moto e que só o voltou a descobrir quando começou a andar de moto em grupo, Ulissinho grande companheiro Motociclista de Livramento, adora viajar em grupo.




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