quinta-feira, 20 de agosto de 2020

SERÁ POSSÍVEL A VOLTA ÀS AULAS EM 2020?



 Depois da reabertura do comércio e outras atividades em grande parte do Brasil a partir de junho, os governos têm sido pressionados a retomar as aulas presenciais mesmo com a pandemia do novo coronavírus ainda fora de controle. Com mais 3 de milhões de infectados, o país ultrapassou nessa quarta feira (20) a marca de 111.100 mil mortos pela doença.

O debate sobre a volta às escolas envolve preocupações e interesses variados em todo o mundo e questões ainda mais complexas num lugar marcado pela desigualdade como o Brasil. Países que já começaram a reabertura escolar têm observado efeitos diferentes na circulação do vírus. Ainda não há uma resposta fácil para a situação que, em agosto de 2020, ainda afeta cerca de um bilhão de estudantes, em mais de 100 países, segundo as Nações Unidas.

Um total de 47,8 milhões de estudantes estavam matriculados na educação básica no Brasil em 2019, segundo o Censo Escolar. Desse total, 81% estudam na rede pública.

O principal argumento levantado pelos defensores da volta das escolas é que a paralisação prolongada pode impactar de forma irreparável o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos. O secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), António Guterres, chamou a suspensão das aulas de uma “catástrofe geracional” capaz de minar “décadas de progresso” e exacerbar as desigualdades sociais.

Ele defendeu em 4 de agosto que o retorno às atividades escolares seja “prioridade máxima”, mas ressaltou que isso deve ocorrer onde a pandemia estiver controlada, o que não é o caso do Brasil. No dia seguinte, a OMS (Organização Mundial de Saúde) afirmou que reabrir as escolas num contexto de ampla transmissão pode piorar o problema.

Alguns estados brasileiros já começaram a permitir a retomada de aulas na rede privada, enquanto as escolas públicas seguem majoritariamente fechadas desde março. No estado de São Paulo, que concentra os casos e mortes por covid-19 no país, o governador João Doria anunciou que atividades presenciais de reforço e acolhimento poderão ser retomadas em 8 de setembro, mas a volta às aulas foi adiada para 7 de outubro. Independentemente da decisão, algumas cidades, como as do ABC Paulista, já descartaram reabrir as escolas municipais em 2020.

 Para entender o que pensa a comunidade escolar sobre uma possível reabertura em meio à pandemia, foram ouvidas algumas pessoas:

‘NÃO TEM NEM PAPEL HIGIÊNICO NA ESCOLA, IMAGINE ÁLCOOL EM GEL’
Adrielle Nathalia dos Santos Ribeiro aluna do terceiro ano do ensino médio da Escola Estadual Professor Sebastião de Oliveira Gusmão, em São Paulo

Minha mãe e minha irmã trabalham, e tenho que ficar com o meu irmão. É casa para limpar, comida para fazer, e à noite, quando estou esgotada, não consigo estudar. Recebi duas apostilas da escola. No Facebook, criaram um grupo com os alunos. Também me passaram um site com as matérias e as explicações, e tenho os professores nas redes sociais. Consegui fazer alguns trabalhos, mas é muito complicado.

Por mais que eu queira muito que as aulas voltem, acho que não é a prioridade agora, porque tem muita gente morrendo. A escola em si não tem estrutura para garantir a higiene dos alunos. No nosso dia a dia, uma coisa tão simples quanto papel higiênico não tem no banheiro. Imagine álcool em gel e máscara. É muita gente que estuda lá, principalmente à noite. Se voltar as aulas, não vou.

‘VOLTA TRARIA ESTRESSE IMENSO DE TENTAR CONTROLAR O INCONTROLÁVEL’
Rebeca Castiglione, professora na Escola Municipal de Educação Infantil Armando de Arruda Pereira, em São Paulo, e mãe de uma aluna de dois anos da rede pública.

Voltar às aulas agora deixaria todo mundo num nível de estresse imenso de tentar controlar uma coisa que é incontrolável. Nossa escola é muito privilegiada, pois tem uma área externa imensa. Nesse sentido, seria mais fácil estar ao ar livre mais tempo. Por outro lado, são crianças menores, são muito corporais, a mão está sempre em todo o canto. Como conseguir manter as máscaras nas crianças e se comunicar desse jeito com elas, sem que elas fiquem incomodadas? Como fazer na hora da refeição? Na nossa escola, que tem mais de 300 alunos, a maioria das famílias têm muita clareza de que o momento não é seguro para voltar e não quer voltar.

O momento que o mundo está passando também ensina muitas coisas, e as crianças seguem se desenvolvendo. Não é que elas estejam perdendo tudo. Mas a gente sabe que estar na escola é um espaço privilegiado de aprender, de estar junto. Tem perdas, sem dúvida, mas qual é a nossa opção? A gente está falando de redução de danos. Neste momento, se a outra opção é colocar em risco a vida das crianças ou das pessoas que cuidam delas, é o que a gente tem que fazer: ficar em quarentena para que esse tempo passe o mais breve possível.


‘NÃO BASTAM SÓ PROTOCOLOS SANITÁRIOS, TEM QUE TER PROTOCOLO PSICOLÓGICO’
Celso Napolitano presidente da Federação dos Professores do Estado de São Paulo, entidade que representa profissionais da rede privada de ensino.

Em que condições vamos voltar com 30% dos alunos só? E o que fazer com os outros 70%? Um argumento para justificar a volta às aulas é que os pais precisam trabalhar. Mas se as crianças vão voltar uma ou duas vezes por semana, como é que o pai vai fazer nos outros dias? Há que se discutir também de que forma esses alunos voltarão. Não bastam só protocolos sanitários, tem que ter outros tipos de protocolo psicológico e até fonoaudiológico. Como é que um professor vai trabalhar quatro horas de máscara? Como fica a questão do transporte público? Como essa pessoa vai se transportar até a escola?


FONTE: NEXO JORNAL


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